domingo, 3 de fevereiro de 2008

Carna o que?

Para os que não são muito fãs da festa momesca que toma a cidade nesta época do ano, este feriadão pode ser uma boa desculpa para colocar os vídeos em dia. Pegar um pacotão de séries e fazer uma maratona de House, por exemplo. Ou que tal reunir os amigos para assistir aos 24 episódios de 24 Horas de uma tacada só? Eu optei pela segunda temporada de 24 Horas, mas preferi em doses homeopáticas.

Há ótimos filmes sobre música, que são fáceis de conseguir nas locadoras. The Wonders, sobre uma bandinha pop, no melhor estilo one hit wonder, nos anos 60. Tem Tom Hanks e a lindíssima Liv Tyler no elenco. Stoned, conta a história de Brian Jones no início dos Rolling Stones. Para os amantes do Jazz, que tal rever Bird, a cinebiografia do Charlie Parker dirigida por Clint Eastwood? Do diretor Michael Winterbotton recomendo 9 Canções e 24Hour Party People (A Feste Nunca Termina, em português). O primeiro, é uma história de amor regada a rock'n'roll. O segundo, é muito difícil de encontrar nas locadoras (a Cavídeo tem), mas vale a pena o esforço. O filme mostra a cena rock de Manchester no final dos anos 70 e início dos anos 80. Mostra a gravadora Factory, o clube Hacienda e o nascimento do Joy Division.

Já no campo dos documentários, recomendo No Direction Home. Documentário sobre Bob Dylan dirigido por Martin Scorcese. The Festival Express documenta um festival no Canadá onde participaram Janis Joplin, Buddy Guy, The Band e Greateful Dead. Os músicos se deslocaram de trem. A maior loucura. The Last Waltz, também dirigido por Scorcese é o documentário da despedida da The Band, a banda que acompanhou Bob Dylan. Imperdível para os fãs de rock. Os quatro volumes da série Jazz também são imperdíveis. Ótimo programa para quem curte jazz, toda a história dos grandes músicos do genêro está descrita ali.

No ramos esportivo recomendo os documentários de surf Endless Summer e Fábio Fabuloso. O primeiro é um documento histórico, até aqueles que não curtem surf vão gostar. Conta as aventuras de 2 surfistas californianos que viajaram pelo mundo surfando na década de 60. Divertidíssimo. O segundo, eu ainda não vi, documenta a trajetória de um dos melhores surfistas brasileiros. Dogtown and the Z-boys é um documentário sobre o nascimento do skate na Califórnia. Mostra como um bando de garotos surfistas revolucionaram o jeito de andar de skate e deram forma ao esporte como é conhecido hoje. Podem aproveitar e assistir ao filme baseado nessa história, Os Reis de Dogtown, com o recém finado Heath Ledger.

É isso aí meu povo, divirtam-se e se cometam excessos.

"Não dê conselhos, não peça permissão."
Legião Urbana

domingo, 13 de janeiro de 2008

Feliz Aniversário, envelheço na cidade.

Três músicas para aniversário:
Envelheço na cidade - Ira!
Happy Birthday - Concrete Blonde
Seventeen Again - Eurythmics

Tendo sobrevivido a mais um aniversário (13/01) chego finalmente aos 37. Para mim, 37 não é nenhum número enigmático e não acredito em algum significado numerológico, é apenas um número primo. Para mim não é nada diferente de 36 ou de 38.

Não faço promessas e não tenho resoluções de Ano Novo. Contudo, no meu ano novo biológico, faço uma reflexão sobre minha vida, meu passado e meu futuro. Não sou muito saudosista e não curto ficar olhando para o passado, de modo que me concentro mais no presente e no futuro. Apenas sinto falta da minha trilha sonora dos 17 anos. Sinto falta das músicas que tocavam nas rádios. Sinto falta das bandas de 1988. Especialmente das brasileiras.

Atualmente o rock brasileiro está em coma. quase não há renovação. Apenas o underground floresce. Uma pena que o underground esteja cada vez mais under. O mainstream do rock nacional é tão chaaato! Tirando as velhas bandas dos anos 80 que ainda estão por aí (e cada vez mais brandas), restam uns poucos que tentam fazer um rockzinho meio punk insosso prá cacete. Uma banda que mereceu minha atenção foi a Brava. Grupinho que lançou um cd homônimo em 2003, mas que não chegou a fazer sucesso e acredito que tenha acabado. O álbum é muito bom. Pop rock de primeira. Mas por algum motivo que desconheço, não aconteceu. Na década de 80 teria estourado.

Que saudade da Rádio Fluminense e da antiga Rádio Cidade. Ícones de uma década que decolou o BRock. Por que as rádios atuais tocam tanto flashback? Por que não há uma rádio rock? Essa última é fácil de responder, o público carioca não gosta mais de rock. Não se interessa por rock.

Os garotos não sonham mais em ter uma guitarra e em ser um astro de rock. Eles sonham em ser pagodeiros ou funkeiros. Dá mais fama e dinheiro e garotas. Tento em vão introduzi-los na história do rock, falo de Beatles, Hendrix, Clapton, e nada. Mostro álbuns do The Cult, The Police, do Nirvana e não surge o menor efeito. Eles perguntam: "e o CPM 22 tio?".

E assim o rock vai definhando. Vida longa ao underground.

"Elvis is dead!"
Living Colour

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tragam-me a Noite

Coloquei o título provisório para esta coluna de "o melhor disco de todos os tempos". Um certo exagero que corrigi mais tarde. Mas "Bring on the Night" merece estar na minha lista de preferidos. Já teci louvores a este disco em outra coluna e agora resolvi dizer o por quê.

Após ter saído do The Police no auge, Sting inova e surpreende reunindo um grupo de ótimos músicos de jazz para seu primeiro álbum solo. Com Omar Hakim (bateria), Brandford Marsalis (saxofone e clarinete), Daryl Jones (baixo), Kenny Kirkland (teclados) e as backing vocals Janice Pendarvis e Dollete McDonald, "The Dream of the Blue Turtles" foi um ótimo disco, com arranjos jazzisticos para um pop rock as vezes meio engajado. Mas ao decidir registrar a turnê deste álbum em disco surgiu algo mágico. O que já era bom extrapolou a escala de excelência.

Como primeiro disco ao vivo de sua carreira Sting arrisca e grava um álbum duplo. Poderia ter seguido a fórmula fácil e gravado alguns dos medalhões do repertório do Police. "Roxxane", "Every Breath You Take", não estão lá. Também não está a música de trabalho do álbum ora em divulgação, "If You Love Somebody Set them Free", nem "Russians". Mas, sim, misturou músicas do novo disco com releituras de algumas músicas não tão conhecidas do Police.

A abertura com a versão medley de "Bring on the Night/When the World is Running Down, you Make the Best of What's still Around" é uma explosão de um ritmo que viria a se chamar mais tarde de acid jazz. Brandford Marsalis estava em estado de graça e sua participação foi fundamental para dar coesão ao disco. Seu solo de clarinete em "Children Crusade" é de arrepiar. Aquele soprador de apito chamado Kenny G deveria ouvir esse disco para tentar aprender como tocar aquele instrumento.

No LP, medley de "One World (not three)/Love is the Seventh Wave", outro grande momento, vinha junto com "Moon Over Bourbon Street" e "I Burn for you", tornando-se um dos melhores lados do álbum. Esta última foi um lado b de algum compacto (single) do "Synchronicity" que , na minha opinião, deveria ter substituído "Mother" (certamente a pior música do Police) naquele disco.

No último lado, tínhamos uma música de protesto, "Another Day"(lado b de um compacto do disco solo). A versão maravilhosa de "Children Crusade", onde Brandford faz valer o seu salário. E para finalizar, um blues em "Down so Long" e uma linda versão de "Tea in Sahara". Perfeito do início ao fim, está notopo da minha lista de melhores discos ao vivo. Recomendo ouvir sem moderação.

"As quiet fills the room
And your love flows through me
Though I lie here so still
I burn for you"
Sting

domingo, 23 de dezembro de 2007

Talking by my Generation

Acabo de chegar de Manaus, onde convivi por 10 dias com 2 adolescentes. É engraçada a reação deles a tudo que vem de nós mais velhos. Em geral as coisas que apresentamos são consideradas chatas, velhas e ultrapassadas (caretas, para usar um termo mais apropriado). Seja no campo das artes audiovisuais ou literatura ou culinária. Quando tentei convencê-los a assistir Gremlins, me perguntaram se o filme era em preto e branco. Tento me lembrar de como eu era nessa idade e a memória que tenho é que apesar de também negar a geração anterior eu sempre tive um a certa curiosidade de conhecer coisas diferentes.

Entendo que os adolescentes têm a necessidade de se afirmar no mundo e cortar o cordão umbilical com seus pais e começam a fazer suas próprias escolhas. E uma forma de se afirmar é negar aquilo que vêm dos pais (ou das gerações anteriores), do tipo: não sei o que quero mais sei o que não quero. Contudo, da forma com que encaro as coisas agora, tudo que não conheço é uma novidade, tenha sido produzido a 30 anos atrás ou há apenas 30 dias.

O mais incrível é que eu sempre me achei antenado com as novas gerações. Sempre encarnei o velho lema "I hope I die before I get old". Tento sempre conhecer a produção cultural da nova geração, mas creio que isso não é suficiente. Eu sempre serei encarado como o Tio, sempre serei um forasteiro. Não que eu queira fazer parte da turma, mas apenas trocar experiências e impressões. Creio que é preciso amadurecimento para reconhecer que há mais no mundo do que a última melhor banda de todos os tempos. Eu mesmo demorei a curtir jazz, por achar uma música careta.

Acho que não conseguirei vencer esse conflito mesmo tendo boa vontade em passar novos conceitos para a garotada, e talvez seja bom assim. Algumas boas revoluções na música e nas artes em geral ocorreram dessa forma, como o modernismo, o punk rock e o tropicalismo. Aguardo a vez de duelar com minha filha.

"Não confie em ninguém com mais de 30,
Não confie em ninguém com 32 dentes."
Titãs

sábado, 15 de dezembro de 2007

"Viver é difícil"

Assim falou Niemeyer em seu aniversário de 100 anos: "viver é difícil". Olho um encarte da Fnac com livros de auto-ajuda. Parece que todos os segredos da vida foram revelados e tudo será mais fácil. Parece que está tudo lá, nos livros. Como ficar rico, como ser feliz, como ser bem sucedido. Mas Niemeyer serenamente diz que viver é difícil.

O que me espanta mais é a fertilidade do mercado editorial para esse tipo de baboseira. Surgem verdadeiras franquias destes livros que vendem aos montes. Isso me irrita mais do que franquias de filmes. Quem mexeu no meu não-sei-o-que para jovens, para mulheres e para executivos. E ainda geram dvds para explicar o livro. Peguei esse tal de "O Segredo" para ler em uma livraria e fui direto ao ponto e... é só isso? O segredo é o pensamento positivo? É mentalizar o objeto de desejo até conseguí-lo? Acho que já vi isso, mas não estava em um livro, estava dentro de uma lâmpada.

O Rabino Nilton Bonder foi entrevistado pelo JB há poucos domingos. Ele chamou essa classe de livros de pizza: é bom mas não alimenta. Eu diria mais, faz mal à saúde. Bonder lançará em breve um livro chamado "O Sagrado" em que fala da espiritualidade como o segredo da vida. Uma resposta ao famigerado "O Segredo". Caro Bonder, esse nome vai colar mais que aquela cola sua xará. Involuntariamente, talvez você esteja dando munição aos bandidos e criando mais uma franquia.

O que procuram esses leitores de livros de auto-ajuda? O que procuram fora de si? Olhem um pouco mais para dentro de si, a verdadeira descoberta está no EU. Está em saber a verdade pessoal que está dentro de nós. Isso não se aprende em livros. Não se aprende a viver nos livros. Cada um descobre à sua maneira. Não existe fórmula mágica. Vou repetir: "NÃO EXISTE FÓRMULA MÁGICA".

O milagre está dentre de nós. Algumas religiões até prometem resolver nossos problemas. Mas na religião encontramos conforto, fraternidade, encontramos a palavra amiga e a força para seguir adiante. Mas os problemas não se resolverão sozinhos. Para cada um novo obstáculo, um novo algoritmo.

Obrigado Niemeyer pela frase simples e verdadeira: "Viver é difícil". Esse pessoal da auto-ajuda necessita é de análise. Jung, Freud e Lacan neles!

"And when you want to live,
How you start? Where to go? Who you use to know?"
The Smiths

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Sobre Shows e Momentos Memoráveis

Continua chovendo para cacete. Ouço "Bring on the Night" enquanto escrevo a coluna da semana. É um disco maravilhoso, que turnê divina deve ter sido essa. É um disco que merece uma coluna inteira e ainda vou escrevê-la. O que me chama a atenção é que o dvd não faz jus ao álbum. No dvd o show parece morno, morno. Isso foi motivo de debate em uma lista de emails que faço parte. Ainda que alguns shows sejam considerados um marco, assiti-los na tv não dá a nítida sensação do que ocorreu in loco.

Contudo, há casos em que a mágica permanece. Como não se arrepiar ao assistir ao show do Queen no Rock in Rio 1? - show disponível no emule para quem quiser baixar - Felizes os que estiveram lá para cantar "Love of my Life" regidos por Fred Mercury. Também felizes são os que estiveram na Apoteose e giraram as camisas acima de suas cabeças quando Page & Plant tocaram "Rock'n'Roll". Foram momentos de catarse coletiva e quase religiosos, eu diria.

São esses momentos que tentamos preservar gravando e trocando com os amigos. Alguns viram bootlegs.

Momentos memoráveis aos montes tem um baixinho cuja bibliografia estou lendo. "Noites Tropicais" tem tantas histórias legais que é de dar inveja. Esse Nelson Motta é mesmo "O Cara"! Ele conviveu com a galera da bossa nova e frequentou todas aquelas festinhas musicais que rolavam na Zona Sul dos fins dos anos 50. Conhece todo mundo da música brasileira de A a Z. Passou pelos anos 80 com a galera do BRock. Descobriu Marisa Monte. Foi parceiro do Edu Lobo e do Lulu Santos em clássicos.

Namorou a Elis Regina, casou-se com a Marília Pera. Ainda por cima, foi a umas 5 copas do mundo. Foi membro do Manhattan Connection, e para completar o cara parece ser simpático para cacete e escreve muito bem. Espero ganhar a biografia do Tim Maia (olha a dica Papai Noel) até o meu aniversário (13/01).

Estou de férias e a próxima coluna será escrita em Manaus. Até Lá.

domingo, 9 de dezembro de 2007

A Máquina do Tempo

1987. Eu estava ansioso pelo show. Meu primeiro grande show de rock e com o meu grande ídolo Sting. Naquela época, então com 16 anos, tudo era apaixonante e cheio de superlativos. Eu fui ao show graças ao meu primo que me deu o ingresso. Fomos de cadeira de pista e ficamos bem róximos ao palco. Tênis All Star, camisa e bermuda, e a garganta cantando a plenos pulmões.

2007. Eu estava ansioso pelo show. Ontem, tudo parecia menos importante, apenas algo a se interpor entre mim e o show. Tênis All Star, camisa e bermuda. Entramos cedo, e ficamos falando amenidades a espera do grande momento. As palavras passavam a minha frente sem que eu as notasse. Era como em Confortably Numb: "your leaps move, but I can't hear what your saying".

Aos primeiros acordes de "Vital e sua Moto" já não era mais 2007, era 1987. Apesar da minha artrose constantemente me lembrar do peso de meus quase 37, ali, naquele momento eu tinha 16. Lembrei-me do meu primeiro show do Paralamas em 85. Hebert atacou os acordes iniciais de "Selvagem", música de mais de 20 anos, cuja letra poderia ter sido escrita há poucos meses atrás: "Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos e o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar." Alguém não vê isso todos os dias?

Ao final de "Óculos" eu estava emocionado e cantava a plenos pulmões, a voz já rouca e vi minha vida passar a minha frente. "Ah meu Deus era tudo que eu queria"...

Chegou o grande momento. Eles entram no palco e nos atacam com "Message in a Bottle". Respondo com palmas e canto o mais alto que posso. Será que amanhã tenho aula na ETFQ? Será que tenho alguma prova? Já não me lembro que dia ou que ano estamos. "Synchronicity II" é a segunda, o povo pula e canta. Andy sola e parece nos cortar ao meio com a guitarra. Stewart destrói a bateria ferozmente, ele também parece ter voltado no tempo. Sting agradece em português e faz nossos corações baterem ao ritmo de seu baixo.

O desfile de sucessos em novos arranjos continua sem parar. "Driven to Tears" vem mais roqueira, sem o funkeado original e me surpreende. "Truth Hits Everybody" menos nervosa e punk que o original. Os meteorologistas previam chuva torrencial, mas São Pedro também gosta de rock e fez o céu abrir a tempo de"Walking on the Moon".

O show terminou com "Every Breath you Take" e depois "Next to You". A viagem terminara. 2007. Suado, rouco, mancando e com a alma mais leve, eu estava de volta ao futuro. Uma pena que meu afilhado de 15 anos, filho daquele meu primo do primeiro parágrafo, não pôde estar aqui. Gostaria de ter compartilhado esse momento com ele. Como seu pai fez comigo.

"...The future is but a question mark
Hangs upon my head there, in the dark..."